O último relatório de Transparência Salarial, instituído pela Lei 14.611, de julho de 2023, mostra que quase metade das mulheres em idade de trabalhar está fora do mercado de trabalho no Brasil. A economista e professora da Fundação Getulio Vargas (FGV) Carla Beni atribui essa situação à falta de políticas públicas e às desigualdades estruturais do país. “Uma coisa é estar desempregada, outra é estar fora da força de trabalho”, explicou. “Muitas mulheres estão em idade ativa, mas não trabalham porque assumem o chamado trabalho invisível, cuidando de filhos, idosos e da casa”, disse, durante participação no ICL Mercado e Investimentos de segunda-feira (6).
Segundo ela, apesar da queda recente do desemprego, os dados escondem uma realidade mais complexa. Ela destacou que a baixa participação feminina está diretamente ligada à sobrecarga doméstica.
“Uma mulher pode não estar trabalhando porque está cuidando dos pais, dos filhos ou da casa. Esse é o tema central da questão”, afirmou.
Estudos mostram que mulheres dedicam, em média, 21 horas semanais a tarefas domésticas, contra 11 horas dos homens. Para a economista, essa diferença impacta diretamente a inserção profissional e a renda ao longo da vida.
“Esse tema é tão relevante que exige uma combinação entre Estado, setor privado e sociedade civil”, defendeu.
Diferença salarial e políticas necessárias
Mesmo quando conseguem emprego, mulheres ainda enfrentam desigualdade salarial significativa. Segundo Beni, isso está relacionado a fatores estruturais e à maternidade.
“A mulher ganha menos ao longo da vida porque, em algum momento, pode ter um filho e se afastar do trabalho”, disse. Para ela, uma alternativa seria ampliar o debate sobre licença parental compartilhada. “Isso reduziria muito a desigualdade salarial.”
A economista também defendeu maior investimento em creches e escolas em tempo integral. “Isso é fundamental para que a mulher consiga trabalhar e saber que o filho está seguro.”
Educação, pobreza menstrual e exclusão
Outro ponto levantado foi o impacto da falta de acesso à educação, especialmente entre jovens mulheres.
“Muitas deixam de estudar por questões financeiras ou por trabalho invisível dentro de casa”, explicou. Ela destacou ainda o papel da chamada pobreza menstrual. “A menina perde aula porque não consegue comprar absorvente.”
Para Beni, políticas públicas simples podem ter grande impacto. “Desde a distribuição de absorventes até redes de apoio para cuidados com crianças e idosos fazem diferença”, pontuou.
Pandemia agravou desigualdades
A economista também apontou que a pandemia aprofundou a distância entre homens e mulheres no mercado de trabalho.
“Durante a Covid-19, em geral, eram as mulheres que cuidavam dos doentes”, afirmou. “Depois disso, muitas tiveram dificuldade de retornar ao mercado”, completou.
Segundo ela, decisões familiares frequentemente recaem sobre a mulher. “Alguém precisa cuidar, e esse sacrifício acaba ficando nas costas dela.”
Bolsa Família e mitos sobre o trabalho
Beni também rebateu a ideia de que programas sociais desestimulam o emprego. “Ninguém prefere ficar em casa para receber R$ 600 por mês”, disse. “O Bolsa Família não desestimula o trabalho.”
Ela destacou que a dificuldade de inserção profissional, especialmente entre mães de crianças pequenas, está mais relacionada à falta de estrutura. “Se não há creche, quem vai cuidar dessa criança?”, lembrou.
A fala da economista é reforçada por um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI), que conclui que o programa de transferência de renda não provoca redução sistemática na participação das mulheres na força de trabalho.
Impacto econômico da participação feminina
Por fim, a economista ressaltou que ampliar a participação das mulheres no mercado pode impulsionar o crescimento econômico.
“A independência feminina, que passa pela independência financeira, é fundamental para mudar essa estrutura na sociedade”, afirmou.
Ela concluiu destacando a necessidade de repensar modelos sociais diante do envelhecimento populacional e da persistência do trabalho não remunerado. “Precisamos ampliar nossa forma de pensar e redistribuir responsabilidades.”
Veja a participação completa de Carla Beni no vídeo abaixo:
https://youtu.be/bDx6Nu1LePc?si=8qYg2_WFfItFFWnC
ICL NOTÍCIAS
https://iclnoticias.com.br/economia/mulheres-invisiveis-mercado-trabalho/


